Vamos resolver a equação de Schrödinger para obter a função de onda para diferentes potenciais. Neste capítulo (a não ser que seja dito o contrário), assumiremos que V=V(x) é real e independente do tempo. Dessa forma, podemos usar o método de separação de variáveis para resolver a equação e procurar soluções do tipo:
Então, um lado da equação depende apenas do tempo e o outro apenas da posição. A única forma de isso ser válido é se ambos forem iguais a uma constante, pois se temos f(x)=f(y), isso significa que podemos variar x livremente enquanto y permanece fixo; portanto, f(y) deve ser constante. A única forma de a igualdade ser válida para qualquer valor de x e y é se ambos forem iguais a uma constante, ou seja, f(x)=f(y)=c. Vamos identificar essa constante, por enquanto, como E. Temos então duas equações:
Onde por exemplo C1é uma constante qualquer, então pode absorver os valores constantes ℏiEC1→C1 sem perca de generalidade. A mesma coisa C0+C1. Então:
A segunda equação é a equação de Schrödinger independente do tempo e depende do potencial especificado. Então no resto do capítulo nos dedicaremos investigar uma variedade potenciais simples. Soluções dessa forma nos interessam por três motivos:
Em primeiro lugar, são estados estacionários. Escrevendo a solução como:
Consequentemente então o valor esperado é constante no tempo. Além disso, como ⟨x⟩=∫x∣ψ∣2dx é uma integral definida na posição, e que depende só da posição, constante no tempo, consequentemente ⟨p⟩=md⟨x⟩/dt=0.
Em segundo lugar os estados são estados de energia total definida. Na mecânica clássica, a energia total é a soma da energia cinética mais a potencial, e é chamado de hamiltoniano[2]:
Ou seja, temos zero dispersão. O que nos garante que temos certeza do valor que será retornado, sempre que medimos a energia total, iremos obter E.
E o terceiro motivo, matemático, é que a solução geral é uma combinação linear
E o terceiro motivo, matemático, é que a solução geral é uma combinação linear[3] de soluções separáveis, como veremos. Se denotamos o conjunto de soluções separáveis como ψ1,ψ2,…,ψn ou apenas {ψn}, cada uma delas está associada a uma constante E1,E2,…,En ou {En}, de forma que temos uma função de onda pra cada energia permitida:
O que faremos no restante do capítulo é encontrar cne ψn para diferentes situações (e vale ressaltar que as condições iniciais nem sequer precisam ser contínuas). e no próximo capítulo reescrever este resultado de uma forma mais elegante.
Exemplo: Supondo uma partícula que nos é dado o estado inicial
Assumindo que as funções e as constantes são reais, queremos saber qual é a função de onda de Ψ(x,t) nos tempos seguintes, encontrar a densidade de probabilidade e descrever seu movimento.
Ou seja, devido ao termo oscilatório, podemos dizer que ela não está em um estado estacionário, mas oscila entre os dois estados. Claro que isto não diz respeito à trajetória no sentido clássico, mas à probabilidade de encontrarmos a partícula em diferentes regiões do espaço. O significado físico do conjunto {cn}, isto é, o que ele representa fisicamente, é que ∣cn∣2 é a probabilidade de que a medida da energia retorne o valor En. A explicação disso fica para o próximo capítulo. Ainda vale comentar que existe uma tendência errada de dizer que você vai medir a partícula no estado ψn, mas essa é uma linguagem incorreta. O que obtemos quando fazemos uma medida é um observável, um número; obtemos En, e não uma função.
–
Ou seja, uma medida da energia sempre vai retornar um dos valores possíveis, e ∣cn∣2 é a probabilidade de obtermos o valor En em particular. De forma que é óbvio que:
Uma vez que, como vimos, o valor médio de j, se a probabilidade de obtermos j é escrita por P(j), é dada por ⟨j⟩=∑jjP(j). Vale lembrar que, anteriormente, vimos que uma solução separável ψn(x) sempre retorna En se medirmos a energia. Porém, o que temos agora é que Ψ(x,t) é uma é uma superposição de várias soluções separáveis, onde temos a probabilidade dada por ∣cn∣2 de medirmos uma energia En associada à solução separável ψn(x).
Também vale destacar que tudo isso é independente do tempo, desde as probabilidades de obter determinada energia até, consequentemente, os valores esperados de H. Essas são manifestações da conservação de energia.
Exemplo: Prove os seguintes teoremas:
a) Para uma solução normalizável, então E deve ser real.
b) A função de onda independente do tempo ψ(x) sempre pode ser considerado real. Ou seja, sempre podemos expressar ψ(x) como uma combinação linear de soluções reais.
c) V(x) é uma função par então ψ pode ser uma função par ou ímpar.
Vamos escrever E=E0+iΓ, onde E0 e Γ são reais, conforme sugerido. Logo:
Porém se é normalizável, precisamos que ∫−∞+∞∣Ψ(x,t)∣2dx=1. Colocado dessa forma, isso é válido para t=0, mas a única forma então garantirmos que a função de onda permanece normalizada todo o tempo é se Γ=0. Logo E precisa ser real.
O segundo teorema que queremos provar, é que ψ(x) sempre pode ser considerado real. Vamos partir da equação de Schrödinger inependente do tempo. Se ψ1 e ψ2 são soluções, qualquer combinação linear ψ=c1ψ1+c2ψ2 também é uma solução.
Então só precisamos mostrar que uma função de onda qualquer ψ , mesmo que seja complexa, pode ser escrita como uma soma de funções reais ψ1 e ψ2 multiplicando por constantes c1 e c2. Primeiro queremos escrever então
Então se c1=1, c2=i e ψ1 e ψ2 são a parte real e imaginária de ψ, então esta também é uma solução válida pra equação de Schoedinger e podemos escrever ψ como uma combinação linear de funções reais ψ1 e ψ2. Temos:
Então, se escrevemos ψ1=ψ+ψ∗, como ψ e ψ∗ são soluções, então ψ1 também é. Essa é uma função real que representa a parte real de ψ. Da mesma forma, ψ2=ψ−ψ∗ também é uma função real que representa a parte imaginária de ψ e também é solução. Por consequência, ψ=21ψ1+2iψ2 necessariamente também é uma solução, onde escrevemos a função complexa ψ como uma combinação linear das funções reais ψ1 e ψ2.
E o terceiro teorema diz que se V(x) é uma função par (V(−x)=V(x)) então ψ pode ser uma função par ψ(−x)=ψ(x) ou ímpar ψ(−x)=−ψ(x). Vamos começar construindo uma função par de ψ(x), isto é, que elimina a parte ímpar:
Ou seja, eliminamos a parte ímpar da função e ficamos com a parte par duplicada, mas a função resultante é simétrica. De forma análoga, podemos remover a parte par com:
Basta multiplicarmos por (−1) para retomar a equação original[5].
Exemplo: Mostre que E deve exceder o valor mínimo de V(x) pra qualquer solução normalizável da equação de Schrödinger independente do tempo e qual é o análogo clássico desta declaração?
Partindo da equação de Schrödinger independente do tempo, temos:
Isso implica que o sinal da segunda derivada de ψ deve ser o mesmo do sinal de (V(x)−E)ψ(x). Para analisar, precisamos lembrar o significado das derivadas:
A primeira derivada indica se uma função f(t) está aumentando (f′>0) ou diminuindo (f′<0), ou se está em um ponto crítico (f′=0).
A segunda derivada indica se a primeira derivada está aumentando (f′′>0) ou diminuindo (f′′<0).
Uma boa analogia é a de um carro:
x(t) indica a posição do carro em relação a um ponto de referência (origem).
A primeira derivada x′(t)=v(t) é a velocidade, indicando se o carro se move para a direita (v>0) ou para a esquerda (v<0).
A segunda derivada x′′(t)=a(t) é a aceleração.
Se E<Vmin, então V(x)−E>0 para todo x, e a equação indica que o sinal da segunda derivada da função de onda ψ(x) é o mesmo da função ψ(x) em si. Na analogia, se o carro está em uma posição positiva (à direita da origem), a aceleração será sempre positiva, isto é se ψ(x) é positivo e sua segunda derivada é positiva, isso implica que ψ(x) tende a crescer sem limites, indo para o infinito quando x→∞.
Analogamente, um carro em uma posição positiva com velocidade positiva e aceleração positiva jamais retornaria à origem, ele aceleraria cada vez mais para longe, o que não é permitido para uma função de onda normalizável, pois ela deve tender a zero no infinito. Se a velocidade for negativa, a aceleração positiva vai forçar uma mudança no sinal da velocidade levando ao mesmo caso anterior onde o carro termina por ir para o infinito. Se antes do sinal da velocidade se inverter, o carro passar pela origem, então agora a aceleração negativa combinado com a velocidade negativa moverá o carro para o infinito pelo sentido negativo.
Portanto, se E<Vmin, não existem soluções normalizáveis para a equação de Schrödinger, pois a função de onda diverge em algum limite. A analogia clássica deste resultado é que a energia total de uma partícula nunca pode ser menor do que sua energia potencial mínima.
Vale lembrar que usamos ∂t∂Ψ pois Ψ(x,t) depende de posição e tempo, mas φ(t) depende apenas do tempo. Portanto, escrevemos ∂t∂φ apenas por ’herança’. Poderíamos (e talvez deveríamos) denotar por dtdφ.
Uma combinação linear é uma expressão construída a partir de um conjunto de funções, multiplicando cada uma por uma constante e somando os resultados. Por exemplo, uma combinação linear de f1(x) e f2(x) é dada por: f(x)=c1f1(x)+c2f2(x).
Já provamos que E deve ser real, V(x) deve ser real para garantir que H seja hermitiano, pelo menos quando estamos nessa discussão onde ψ e V dependem apenas da posição e temos uma separação de variáveis de modo que E é a constante de separação.
Em uma representação matricial, a matriz é hermitiana se ela é igual à sua transposta conjugada. Por hora, estamos assumindo implicitamente que o Hamiltoniano é hermitiano para garantir que seus autovalores E sejam reais.