Skip to article frontmatterSkip to article content
Site not loading correctly?

This may be due to an incorrect BASE_URL configuration. See the MyST Documentation for reference.

Qual (não) é a interpretação da Mecânica Quântica

There is no general consensus as to what its fundamental principles are, how it should be taught, or what it really “means.” Every competent physicist can “do” quantum mechanics, but the stories we tell ourselves about what we are doing are as various as the tales of Scheherazade, and almost as implausible [Griffiths (2017)].

Analogia com a Mecânica Clássica

Segunda Lei de Newton

Uma lei da física pode ser entendida como uma regra que descreve, usualmente por meio de uma formulação matemática, como determinados sistemas físicos se comportam [Siddiqui (2014)]. A segunda lei de Newton, por exemplo, pode ser expressa pela equação

F(x,t)=md2dt2x(t)F\left(x,t\right)=m\frac{d^{2}}{dt^{2}}x\left(t\right)

onde x(t)x\left(t\right) representa a posição de uma partícula de massa mm em relação à origem no instante tt. Quando resolvemos esta equação diferencial sob determinadas condições iniciais, obtemos como solução uma função x(t)x\left(t\right). Assim, uma vez especificadas as forças que atuam sobre a partícula e suas condições iniciais, a segunda lei de Newton determina sua evolução temporal: resolver a equação nos fornece a equação de movimento da partícula.

Por exemplo, para uma partícula livre (F=0F=0), podemos obter sua equação de movimento a partir da segunda lei de Newton:

0=md2xdt20=m\frac{d^{2}x}{dt^{2}}

Definindo a velocidade como v(t)dxdtv\left(t\right)\equiv\frac{dx}{dt} , temos:

0=d2xdt20=dvdt0t0tdt=t0tdvdtdt0=v(t)v(t0)\begin{align} 0 & =\frac{d^{2}x}{dt^{2}}\\ 0 & =\frac{dv}{dt}\\ 0\cdot\int^{t}_{t_{0}}dt' & =\int^{t}_{t_{0}}\frac{dv}{dt'}dt'\\ 0 & =v\left(t\right)-v\left(t_{0}\right) \end{align}

Portanto v(t)=v(t0)v\left(t\right)=v\left(t_{0}\right),ou seja, a velocidade da partícula é constante. Denotando essa velocidade constante por vv, temos:

v(t)=v(t0)dxdt=vt0tdxdtdt=vt0tdtx(t)x(t0)=v(tt0)\begin{align} v\left(t\right) & =v\left(t_{0}\right)\\ \frac{dx}{dt} & =v\\ \int^{t}_{t_{0}}\frac{dx}{dt'}dt' & =v\int^{t}_{t_{0}}dt'\\ x\left(t\right)-x\left(t_{0}\right) & =v\left(t-t_{0}\right) \end{align}

Se x(t0)=x0x\left(t_{0}\right)=x_{0} e t0=0t_{0}=0 ficamos com:

x(t)=x0+vtx\left(t\right)=x_{0}+vt

Neste caso x(t)x\left(t\right) é facilmente interpretável como a posição da partícula no instante tt.

Equação de Schroedinger

O análogo na mecânica quântica para a segunda lei de Newton é a equação de Schroedinger. Em uma dimensão e não relativísitca, a equação de Schroedinger é:

itΨ(x,t)=22m2x2Ψ(x,t)+V(x,t)Ψ(x,t)i\hbar\frac{\partial}{\partial t}\Psi\left(x,t\right)=-\frac{\hbar^{2}}{2m}\frac{\partial^{2}}{\partial x^{2}}\Psi\left(x,t\right)+V\left(x,t\right)\Psi\left(x,t\right)

O equivalente agora para uma partícula livre (V(x,t)=0V\left(x,t\right)=0) é:

iΨt=22m2Ψx2\begin{align} i\hbar\frac{\partial\Psi}{\partial t} & =-\frac{\hbar^{2}}{2m}\frac{\partial^{2}\Psi}{\partial x^{2}} \end{align}

Usando então o método de separação de variáveis, isto é, considerando que a solução pode ser separada em uma parte expacial Φ(x)\Phi\left(x\right) e outra temporal Π(t)\Pi\left(t\right) , isto é Ψ(x,t)=Φ(x)Π(t)\Psi\left(x,t\right)=\Phi\left(x\right)\Pi\left(t\right). Então:

it(Φ(x)Π(t))=22m2x2(Φ(x)Π(t))i1ΠΠt=22m1Φ2Φx2\begin{align} i\hbar\frac{\partial}{\partial t}\left(\Phi\left(x\right)\Pi\left(t\right)\right) & =-\frac{\hbar^{2}}{2m}\frac{\partial^{2}}{\partial x^{2}}\left(\Phi\left(x\right)\Pi\left(t\right)\right)\\ i\hbar\frac{1}{\Pi}\frac{\partial\Pi}{\partial t} & =-\frac{\hbar^{2}}{2m}\frac{1}{\Phi}\frac{\partial^{2}\Phi}{\partial x^{2}} \end{align}

Como um lado depende apenas da dimensao espacial (xx) e o outro apena da dimensão temporal (tt) a única forma de ser verdade é se os dois lados são igual a uma constante EE: Resolvendo então pra parte temporal:

iΠΠt=EdΠdt=iEΠ\begin{align} \frac{i\hbar}{\Pi}\frac{\partial\Pi}{\partial t} & =E\\ \frac{d\Pi}{dt} & =-\frac{iE}{\hbar}\Pi \end{align}

Como temos que a derivada da função Π(t)\Pi\left(t\right) é igual ela mesmo mutiplicada por uma constante, temos uma solução exponencial Π(t)=Aexp(iEt)\Pi\left(t\right)=A\exp\left(-\frac{iE}{\hbar}t\right). Para a parte espacial:

1Φ2Φx2=2mE22Φx2=2mE2Φ\begin{align} \frac{1}{\Phi}\frac{\partial^{2}\Phi}{\partial x^{2}} & =-\frac{2mE}{\hbar^{2}}\\ \frac{\partial^{2}\Phi}{\partial x^{2}} & =-\frac{2mE}{\hbar^{2}}\Phi \end{align}

Como essa é uma equação diferencial linear homogênea de segunda ordem com coeficientes constantes, podemos procurar soluções na forma exponencial Φ(x)=e±ikx\Phi\left(x\right)=e^{\pm ikx}. Nesse caso, de modo que eikxe^{ikx} e eikxe^{-ikx} são duas soluções linearmente independentes para d2Φdx2=k2Φ\frac{d^{2}\Phi}{dx^{2}}=-k^{2}\Phi. Pela linearidade da equação, sua solução geral é uma combinação linear dessas soluções:

Ψ(x,t)=Π(t)Φ(x)=Aexp(iEt)(Bexp(i2mE2x)+Cexp(i2mE2x))\Psi\left(x,t\right)=\Pi\left(t\right)\Phi\left(x\right)=A\exp\left(-\frac{iE}{\hbar}t\right)\left(B\exp\left(-i\sqrt{\frac{2mE}{\hbar^{2}}}x\right)+C\exp\left(i\sqrt{\frac{2mE}{\hbar^{2}}}x\right)\right)

Ou escrevendo k2=2mE/2k^{2}=2mE/\hbar^{2} e ω=E\omega=\frac{E}{\hbar}

Ψ(x,t)=K1ei(kx+ωt)+K2ei(kxωt)\begin{align} \Psi\left(x,t\right) & =K_{1}e^{-i\left(kx+\omega t\right)}+K_{2}e^{i\left(kx-\omega t\right)} \end{align}

Onde K1K_{1} e K2K_{2} são constantes determinadas pelas condições impostas à solução. Aqui já surgem algumas questões. Quando resolvemos a segunda lei de Newton, obtivemos x(t)x\left(t\right) que descria a posição da partícula. Quando resolvemos a equação de Schroedinger obtivemos Ψ(x,t)\Psi\left(x,t\right), mas o que é Ψ(x,t)\Psi\left(x,t\right)? O que Ψ(x,t)\Psi\left(x,t\right) descreve?

Postulados da mecânica quântica

Notação

Para avançarmos, precisamos conhecer os postulados[1] da mecânica quântica. O primeiro ponto a observar é que eles podem ser formulados de maneiras diferentes de um livro para outro. Vamos utilizar o material do professor Jonas Maziero [Maziero (2026)]. Precisamos começar, então, com alguns comentários sobre a notação de Dirac.

Nessa notação, escrevemos um vetor como v\left|v\right\rangle, chamado ket. Tomando o transposto conjugado desse vetor (ou adjunto), obtemos v=v=(vT)\left\langle v\right|=\left|v\right\rangle ^{\dag}=\left(\left|v\right\rangle ^{T}\right)^{*} , que é chamado bra. Se representamos o vetor v\left|v\right\rangleem uma base ortonormal {bj}\left\{ \left|b_{j}\right\rangle \right\} , podemos escrevê-lo como uma combinação linear dos vetores da base: v=ibivbi\left|v\right\rangle =\sum_{i}\left\langle b_{i}|v\right\rangle \left|b_{i}\right\rangle. Na representação matricial, temos

v=[b1vbnv]\left|v\right\rangle =\left[\begin{array}{c} \left\langle b_{1}|v\right\rangle \\ \vdots\\ \left\langle b_{n}|v\right\rangle \end{array}\right]

O produto de um bra por um ket é chamado produto interno e resulta em um escalar:

wv=wv=[b1wbnw][b1vbnv]=j=1nbjwbjv\left\langle w|v\right\rangle =\left|w\right\rangle ^{\dag}\left|v\right\rangle =\left[\begin{array}{ccc} \left\langle b_{1}|w\right\rangle ^{*} & \dots & \left\langle b_{n}|w\right\rangle ^{*}\end{array}\right]\left[\begin{array}{c} \left\langle b_{1}|v\right\rangle \\ \vdots\\ \left\langle b_{n}|v\right\rangle \end{array}\right]=\sum^{n}_{j=1}\left\langle b_{j}|w\right\rangle ^{*}\left\langle b_{j}|v\right\rangle

Por outro lado, o produto de um ket por um bra, é chamado produto externo e resulta em um operador, cuja representação matricial é:

vw=vw=[b1vbnv][b1wbnw]=[b1vb1wb1vbnwbnvb1wbnvbnw]\left|v\right\rangle \left\langle w\right|=\left|v\right\rangle \left|w\right\rangle ^{\dag}=\left[\begin{array}{c} \left\langle b_{1}|v\right\rangle \\ \vdots\\ \left\langle b_{n}|v\right\rangle \end{array}\right]\left[\begin{array}{ccc} \left\langle b_{1}|w\right\rangle ^{*} & \dots & \left\langle b_{n}|w\right\rangle ^{*}\end{array}\right]=\left[\begin{array}{ccc} \left\langle b_{1}|v\right\rangle \left\langle b_{1}|w\right\rangle ^{*} & \dots & \left\langle b_{1}|v\right\rangle \left\langle b_{n}|w\right\rangle ^{*}\\ \vdots & \vdots & \vdots\\ \left\langle b_{n}|v\right\rangle \left\langle b_{1}|w\right\rangle ^{*} & \dots & \left\langle b_{n}|v\right\rangle \left\langle b_{n}|w\right\rangle ^{*} \end{array}\right]

Com esses conceitos em mente, podemos agora avançar para os postulados da mecânica quântica propriamente ditos.

Postulado dos estados

Em toda teoria física, buscamos descrever os estados possíveis do sistema de interesse, as mudanças desses estados (evolução temporal) e as quantidades observáveis e suas medidas. Por exemplo, em Mecânica Newtoniana (MN) o estado de um sistema em um certo instante de tempo é especificado pelos valores de posição e velocidade em relação a um certo referencial inercial, e a evolução temporal é dada pela segunda lei de Newton. Os observáveis são essencialmente as posições, das quais obtemos as velocidades usando o parâmetro tempo. Está implicito em MN que os valores dos observáveis estão determinarmos antes mesmo de serem medidos, e que todos esses observáveis podem ter valores bem definidos em um determinado instante de tempo. Na sequência veremos os postulados da MQ para descrever estados, mudanças desses estados, observáveis e suas medidas. Veremos que a parte da medida difere muito daquela da MN, principalmente por causa da existência de observáveis que não podem ter valores bem definidos ao mesmo tempo [Maziero (2026)].

O estado de um sistema quântico é descrito por um vetor normalizado em um espaço de Hilbert H\mathcal{H}. Por simplicidade, consideraremos H\mathcal{H} como sendo um espaço vetorial munido de uma função produto interno :HC\left\langle \cdot|\cdot\right\rangle :\mathcal{H}\rightarrow\mathbb{C}.

Além disso, um espaço de Hilbert é um espaço vetorial complexo completo. Para entendermos o que significa ser completo, precisamos primeiro compreender o conceito de sequência de Cauchy. Uma sequência de Cauchy é uma sequência cujos elementos se tornam arbitrariamente próximos uns dos outros à medida que avançamos na sequência. Já um espaço métrico[2] completo é aquele em que toda sequência de Cauchy converge para um limite que também pertence ao próprio espaço.

Por sistema nos referimos a um grau de liberdade[3]. Por exemplo, o spin do elétron é um sistema, outro sistema seria sua posição, e assim por diante. Quando consideramos dois ou mais graus de liberdade como uma única entidade, a chamamos de sistema composto, e se dividirmos o sistema composto em subsistemas, seu estado é descrito por um vetor normalizado em um espaço de Hilbert obtido tomando-se o produto tensorial dos espaços individuais:

H=HaHb\mathcal{H}=\mathcal{H}_{a}\otimes\mathcal{H}_{b}\otimes\dots

Postulado das medidas

Quantidades observáveis (mensuráveis) são representadas por operadores lineares Hermitianos, O=OO=O^{\dagger} definidos em H\mathcal{H}. Ao medirmos um observável, obteremos um de seus possíveis valores, que são dados pelos autovalores do operador hermitiano.

Diferentemente da mecânica clássica (MC), a mecânica quântica (MQ), em geral, não nos permite prever com certeza o resultado de uma medida. O que a MQ nos fornece são as probabilidades de obtenção dos diferentes resultados, calculadas por meio da regra de Born:

P(oψ)=ψo2=oψ2P\left(o|\psi\right)=\left|\left\langle \psi|o\right\rangle \right|^{2}=\left|\left\langle o|\psi\right\rangle \right|^{2}

Essa é a probabilidade de obtermos o valor oo ao medirmos o observável OO de um sistema que está no estado ψ\left|\psi\right\rangle imediatamente antes da medida, e o\left|o\right\rangle é o autovetor de OO correspondente ao autovalor oo. O=OO=O^{\dagger} definidos em H\mathcal{H}. Ao medirmos um observável obteremos um dos seus possíveis valores, que são representados pelos autovalores do operador Hermitiano.

Antes de avançarmos, podemos parar para refletir um pouco. Quando estávamos trabalhando com a mecânica clássica e a lei de Newton, um dos observáveis de uma partícula era sua posição, e a lei de Newton descrevia diretamente como essa grandeza variava no tempo.

Porém, quando abordamos a mecânica quântica, a equação de Schrödinger descreve como a função de onda varia no tempo (e no espaço). Com a notação de Dirac, como veremos ao estudarmos o postulado da dinâmica, temos uma descrição matemática de como o vetor de estado do sistema varia no tempo. Porém, o vetor de estado não é, ele próprio, um observável.

Mesmo ignorando momentaneamente o aspecto probabilístico, utilizamos o vetor de estado para calcular grandezas associadas aos observáveis. Isso já constitui uma diferença fundamental entre a descrição clássica e a quântica dos sistemas. Mas, se calculamos grandezas escalares associadas aos observáveis a partir do vetor de estado (ou da função de onda) do sistema, qual é o significado físico do próprio vetor de estado? Ele sequer possui um significado físico direto?

Este é um dos pontos em que diferentes interpretações da mecânica quântica divergem. Ainda não há consenso sobre qual interpretação fornece a descrição correta da realidade física, embora algumas interpretações possam ser descartadas ou consideradas problemáticas diante de determinados argumentos teóricos e resultados experimentais.

Da mesma forma, diferentes interpretações divergem quanto à questão de saber se todas as informações físicas relevantes sobre um sistema estão necessariamente contidas em seu vetor de estado. Exploraremos diferentes interpretações mais adiante. Por enquanto, basta destacar que o significado físico do vetor de estado e o estatuto da informação que ele contém são questões interpretativas profundas sobre as quais não há consenso.

Repetibilidade das medidas

Porém, existe mais um detalhe que, embora não esteja explicitamente contido nos postulados que apresentamos até aqui, é significativamente diferente quando estamos no domínio quântico: a realização de uma medida afeta o sistema.

Quando observamos a posição de uma bola de futebol que se move de acordo com a mecânica clássica, podemos, em princípio, realizar essa observação sem alterar significativamente o estado da bola. Podemos, portanto, considerar que a observação foi realizada de forma aproximadamente “externa” ao próprio sistema, mantendo-o praticamente inalterado.

No domínio quântico, porém, a situação é diferente. Quando realizamos uma medida, o sistema interage com o aparato de medição e, em geral, seu estado é alterado de maneira significativa. Uma consequência disso é que, se medirmos um mesmo observável duas vezes imediatamente em sequência, o resultado da segunda medida será necessariamente igual ao obtido na primeira.

De fato, suponha que a primeira medida do observável (OO) tenha produzido o resultado (oo). Após essa medida, o estado do sistema passa a ser um estado associado ao resultado (oo). No caso em que o autovalor (oo) não é degenerado[4], podemos escrever

P(oψ)=1,ψ=eiϕoP\left(o|\psi\right)=1,\quad\rightarrow\left|\psi\right\rangle =e^{i\phi}\left|o\right\rangle

Uma segunda medida imediatamente subsequente do mesmo observável produzirá, portanto, novamente o resultado (oo) .

Observe que, teoricamente, antes da realização da medida, a mecânica quântica nos fornece apenas as probabilidades associadas aos possíveis resultados. No laboratório, entretanto, uma realização individual da medida produz necessariamente um resultado definido. Isso nos conduz a outra questão fundamental: a natureza probabilística da mecânica quântica. Suas previsões probabilísticas dizem respeito às frequências e distribuições de resultados obtidas em conjuntos de sistemas preparados de maneira equivalente e submetidos ao mesmo procedimento experimental, e não determinam, em geral, qual resultado específico será obtido em uma realização individual.

Porém, neste instante, antes de a medida ser realizada, temos apenas as probabilidades associadas aos diferentes valores que podemos obter. Nesse caso, em que estado o sistema se encontra? Quando estamos lidando com a mecânica clássica, a dinâmica determinística permite, em princípio, que, conhecendo o estado do sistema em um instante tt, possamos determinar seu estado em um instante anterior t<tt'<t. Podemos estender essa linha de raciocínio para a mecânica quântica? O caráter probabilístico da teoria é uma característica fundamental da natureza ou apenas uma expressão da nossa ignorância sobre o estado do sistema? Novamente, não temos respostas conclusivas para essa questão, e diferentes interpretações da mecânica quântica oferecem respostas distintas.

E, por fim, ainda relacionado à natureza probabilística das medições, interpretações equivocadas frequentemente sustentam a ideia de que a mecânica quântica é uma formulação científica que naturalmente incorpora a possibilidade do livre-arbítrio. Entretanto, o caráter probabilístico da teoria, por si só, não fornece suporte a essa conclusão e não torna a mecânica quântica compatível com o livre-arbítrio. Poderemos discutir melhor esse equívoco quando abordarmos o postulado da dinâmica.

Incompatibilidade quântica

Sejam AA e BB dois operadores Hermitianos definidos em um espaço de Hilbert de dimensão finita dd. Pelo teorema espectral, podemos escrevê-los em suas respectivas decomposições espectrais como

A=j=1dajajajB=j=1dbjbjbj\begin{align} A= & \sum^{d}_{j=1}a_{j}\left|a_{j}\right\rangle \left\langle a_{j}\right| & B= & \sum^{d}_{j=1}b_{j}\left|b_{j}\right\rangle \left\langle b_{j}\right| \end{align}

Os números aja_{j} e bjb_{j} são os respectivos autovalores, e os conjuntos {aj}j=1d\left\{ \left|a_{j}\right\rangle \right\} ^{d}_{j=1}e {bj}j=1d\left\{ \left|b_{j}\right\rangle \right\} ^{d}_{j=1} formam bases ortonormais de autovetores de AA e BB, respectivamente, isto é, diagonalizam esses operadores, de modo que:

Aaj=ajajBbj=bjbj\begin{align} A\left|a_{j}\right\rangle & =a_{j}\left|a_{j}\right\rangle & B\left|b_{j}\right\rangle = & b_{j}\left|b_{j}\right\rangle \end{align}

Assumindo que os dois operadores compartilham a mesma base aj=bjj\left|a_{j}\right\rangle =\left|b_{j}\right\rangle \coloneqq\left|j\right\rangle, então, sendo o comutador definido como [A,B]=ABBA\left[A,B\right]=AB-BA, temos:

[A,B]=(j=1dajjj)(k=1dbkkk)(k=1dbkkk)(j=1dajjj)=j,k=1dajbkjjkkj,k=1dbkajkkjj=j,k=1dajbkjkδjkj,k=1dbkajkjδjk=j=1d(ajbjjjbjajjj)=0\begin{align} \left[A,B\right] & =\left(\sum^{d}_{j=1}a_{j}\left|j\right\rangle \left\langle j\right|\right)\left(\sum^{d}_{k=1}b_{k}\left|k\right\rangle \left\langle k\right|\right)-\left(\sum^{d}_{k=1}b_{k}\left|k\right\rangle \left\langle k\right|\right)\left(\sum^{d}_{j=1}a_{j}\left|j\right\rangle \left\langle j\right|\right)\\ & =\sum^{d}_{j,k=1}a_{j}b_{k}\left|j\right\rangle \left\langle j|k\right\rangle \left\langle k\right|-\sum^{d}_{j,k=1}b_{k}a_{j}\left|k\right\rangle \left\langle k|j\right\rangle \left\langle j\right|\\ & =\sum^{d}_{j,k=1}a_{j}b_{k}\left|j\right\rangle \left\langle k\right|\delta_{jk}-\sum^{d}_{j,k=1}b_{k}a_{j}\left|k\right\rangle \left\langle j\right|\delta_{jk}\\ & =\sum^{d}_{j=1}\left(a_{j}b_{j}\left|j\right\rangle \left\langle j\right|-b_{j}a_{j}\left|j\right\rangle \left\langle j\right|\right)\\ & =0 \end{align}

Então:

0=[A,B]=ABBAAB=BA0=\left[A,B\right]=AB-BA\Longrightarrow AB=BA

Então nós temos que se os operadores compartilham do mesmo conjunto de autovetores eles comutam. E para provar que se comutam compartilham da mesma base de autovetores:

A(Baj)=(AB)aj=B(Aaj)=B(ajaj)=ajBaj\begin{align} A\left(B\left|a_{j}\right\rangle \right) & =\left(AB\right)\left|a_{j}\right\rangle \\ & =B\left(A\left|a_{j}\right\rangle \right)\\ & =B\left(a_{j}\left|a_{j}\right\rangle \right)\\ & =a_{j}B\left|a_{j}\right\rangle \end{align}

Ou seja, nesse caso devemos ter que BajB\left|a_{j}\right\rangle e aj\left|a_{j}\right\rangle pertence ao autoespaço de AA correspondente ao autovalor aja_{j}. Se aja_{j} não é degenerado, seu autoespaço possui dimensão 1. Portanto, qualquer autovetor de AA associado a aja_{j} é linearmente dependente de aj\left|a_{j}\right\rangle. Como BB em aj\left|a_{j}\right\rangle também pertence a esse autoespaço, necessariamente Baj=bjaj.B\left|a_{j}\right\rangle =b_{j}\left|a_{j}\right\rangle .

Agora se aja_{j} é degenerado, isto é, existem dois ou mais autovetores linearmente independentes correspondentes ao mesmo autovalor aja_{j}, então existe um subespaço de H\mathcal{H} gerado pelos autovetores de AA correspondentes a aja_{j}. É um pouco mais complexo, mas é a mesma ideia aplicada a um subespaço de dimensão maior que 1. Para entender isso, vamos nos basear em outra fonte [Massachusetts Institute of Technology (2013)].

Para o caso degenerado, então temos mais vetores associados a aja_{j}. Vamos chamar esse subespaço de Hj\mathcal{H}_{j} e, sendo {ajk}k=1dj\left\{ \left|a^{k}_{j}\right\rangle \right\} ^{d_{j}}_{k=1} uma base qualquer de Hj\mathcal{H}_{j}, então Aajk=ajajkA\left|a^{k}_{j}\right\rangle =a_{j}\left|a^{k}_{j}\right\rangle. Agora, como AA e BB comutam, temos que BajHjB\left|a_{j}\right\rangle \in\mathcal{H}_{j}, isto é, BB transforma vetores de Hj\mathcal{H}_{j} em vetores que também pertencem a Hj\mathcal{H}_{j}. Em particular, BB transforma um autovetor de AA associado a aja_{j} em um vetor permanece no mesmo autoespaço de AA, se Bajk0B\left|a^{k}_{j}\right\rangle \neq0, essevetor também é um autovetor de AA associado a aja_{j}.

Portanto, cada BajkB\left|a^{k}_{j}\right\rangle pode ser escritor como uma combinação linear dos vetores da base de Hj\mathcal{H}_{j}. Assim podemos considerar a ação de BB “internamente” no subespaço Hj\mathcal{H}_{j}. Como BB é hermitiano,sua restrição a Hj\mathcal{H}_{j} também é. E como Hj\mathcal{H}_{j} possui dimensão finita, podemos diagonalizar essa restrição de BB em uma base ortonormal de Hj\mathcal{H}_{j}. Portanto existe uma base de Hj\mathcal{H}_{j} , que podemos denotar novamente por {ajk}\left\{ \left|a^{k}_{j}\right\rangle \right\}, tal que Bajk=bjajkB\left|a^{k}_{j}\right\rangle =b_{j}\left|a^{k}_{j}\right\rangle. Como essa nova base continua sendo uma base de Hj\mathcal{H}_{j}, seus vetores continuam sendo autovetores de AA associados a aja_{j}.

Assim, os autovetores são simultanemanete autovetores de AA e BB. Repetindo esse procedimento para cada autoespaço de AA, obtemos uma base ortonormal de Hj\mathcal{H}_{j} formada por autovetores comuns aos dois operadores.

Ou seja, se os operadores Hermitianos AA e BB comutam, então compartilham uma mesma base ortonormal de autovetores. Para entender melhor essa prova, podemos representar o operador BB como uma matriz na base de autovetores de AA. Usando a relação de completude, I=jajaj\mathbb{I}=\sum_{j}\left|a_{j}\right\rangle \left\langle a_{j}\right| temos que B=IBI=j,k(ajBak)(ajak)B=\mathbb{I}B\mathbb{I}=\sum_{j,k}\left(\left\langle a_{j}\left|B\right|a_{k}\right\rangle \right)\left(\left|a_{j}\right\rangle \left\langle a_{k}\right|\right).

Assim, os elementos da matriz que representa BB nessa base são Baj,ak=ajBakB_{a_{j},a_{k}}=\left\langle a_{j}\left|B\right|a_{k}\right\rangle, ou em forma matricial:

B=[a1Ba1a1Ba2a2Ba1a2Ba2]B=\left[\begin{array}{ccc} \left\langle a_{1}\left|B\right|a_{1}\right\rangle & \left\langle a_{1}\left|B\right|a_{2}\right\rangle & \dots\\ \left\langle a_{2}\left|B\right|a_{1}\right\rangle & \left\langle a_{2}\left|B\right|a_{2}\right\rangle & \dots\\ \vdots & \vdots & \ddots \end{array}\right]

Então podemos pensar em BB como uma matriz bloco-diagonal:

B=[B1000B2000]B=\left[\begin{array}{ccc} B_{1} & 0 & 0\\ 0 & B_{2} & 0\\ 0 & 0 & \ddots \end{array}\right]

Onde cada BjB_{j} é uma submatriz representando a ação interna de BB atuando no subespaço Hj\mathcal{H}_{j}. Se o autovalor aja_{j} é não degenerado, então o bloco BjB_{j}é apenas uma matriz 1×11\times1. Se aja_{j} é degenerado, então o bloco BjB_{j}possui dimensão dj×djd_{j}\times d_{j}.

Como BB é Hermitiano, cada bloco BjB_{j} também é uma matriz Hermitiana e, portanto, pode ser diagonalizado. Assim, podemos diagonalizar BB dentro de cada subespaço Hj\mathcal{H}_{j}, obtendo uma base de autovetores de BB que também são autovetores de AA. Assim provamos que se e semente se, dois operadores AA e BB comutam, então compartilham de uma base de autovetores em comum.

Exemplo.

Em resumo, quando temos um autovalor aja_{j} não degenerado, a situação é muito simples, pois nesse caso, o único autovetor de AA, a menos de um fator multiplicativo, é automaticamente também um autovetor de BB.

Quando aja_{j} é degenerado, seus autovetores formam um subespaço Hj\mathcal{H}_{j}, correspondente ao autovalor aja_{j}, no qual todo vetor não nulo também é um autovetor de AA associado a aja_{j}. Como AA e BB comutam, a aplicação de BB sobre qualquer vetor de Hj\mathcal{H}_{j} resulta em outro vetor pertencente a Hj\mathcal{H}_{j}. Assim, basta encontrar, dentro desse subespaço, os vetores que também sejam autovetores de BB.

Essa possibilidade é garantida pelo fato de BB ser Hermitiano: sua atuação restrita a Hj\mathcal{H}_{j} pode ser representada por uma submatriz Hermitiana, que pode ser diagonalizada por uma base ortonormal de autovetores[5]. Portanto, podemos escolher uma base ortonormal de Hj\mathcal{H}_{j} formada por autovetores de BB. Como todos os vetores de Hj\mathcal{H}_{j} são também autovetores de AA associados a aja_{j}, esses vetores são autovetores comuns de AA e BB.

Repetindo esse procedimento para cada autoespaço de AA, obtemos uma base ortonormal de H\mathcal{H} formada por autovetores comuns de AA e BB.

Relação de Incerteza

Incerteza: questão se é uma questão natureza, ou uma questão de médias.

https://qm1.quantumtinkerer.tudelft.nl/6_the_free_particle/

Não podemos saber com precisão a posição e energia da particula.

Postulado da dinâmica

não há espaço para determinismo.

Experimento dupla fenda

Achar o texto, mas o ponto é: o comportamento ondulatório aparece qauandos se vê coletivamente.

Desigualdade de bell

Interpertaçoes:

Curiosidade: problema da decoerencia

Footnotes
  1. Um postulado é uma proposição assumida como verdadeira dentro de uma teoria, servindo como ponto de partida para a construção de seus conceitos e resultados.

  2. Um espaço métrico é, essencialmente, um conjunto de objetos no qual definimos uma maneira de medir a distância entre dois objetos. No caso de um espaço vetorial com produto interno, a distância pode ser definida a partir da norma induzida pelo produto interno.

  3. Um grau de liberdade corresponde a uma variável física independente que pode variar e que pode ser utilizada para caracterizar o estado de um sistema. Por exemplo, a posição e o spin de uma partícula correspondem a diferentes graus de liberdade.

  4. Um autovalor não degenerado é aquele ao qual corresponde um único autovetor, à parte de uma fase global, isto é, um fator de fase complexo eiϕe^{i\phi} que acompanha o vetor de estado e não afeta os resultados das medidas, pois eiϕ(eiϕ)=1e^{i\phi}\left(e^{i\phi}\right)^{*}=1.

  5. O fato de uma matriz ser Hermitiana garante que podemos escolher, no espaço em que ela atua, uma base ortonormal formada por seus autovetores[Delft University of Technology (2026), nesta página.].

References
  1. Griffiths, D. J. (2017). Introduction to Quantum Mechanics. Cambridge University Press. https://books.google.com.br/books?id=0h-nDAAAQBAJ
  2. Siddiqui, S. (2014). Why are differential equations used for expressing the laws of physics? 10.48550/arXiv.1406.1112
  3. Maziero, J. (2026). Notas de aula de Mecânica Quântica. https://github.com/jonasmaziero/mecanica_quantica/tree/main/notas_de_aula
  4. Massachusetts Institute of Technology. (2013). On Common Eigenbases of Commuting Operators. MIT OpenCourseWare, 8.04 Quantum Physics I. https://www.ocw.mit.edu/courses/8-04-quantum-physics-i-spring-2013/9ccc9fd132124dd102e1a7863e6e12ce_MIT8_04S13_OnCommEigenbas.pdf
  5. Delft University of Technology. (n.d.). Mathematics for Quantum Physics. Retrieved August 31, 2026, from https://interactivetextbooks.tudelft.nl/mqp-v2/